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Voar

      Aos animais irracionais, basta-lhes existirem em seu período de vida - como sempre o foram geneticamente - pois que em seus cérebros não afloram ânsias de se destacarem entre seus semelhantes ou experimentarem sensações para as quais seus corpos não foram talhadas. Um cavalo galopa nas pradarias, assim como um peixe nada nos fluídos submersos e certas aves voam seguindo desígnios simples e transcendentes.

      No entanto, para uma grande parte dos seres humanos, nunca bastou o quinhão normal de possibilidades que a natureza permite. Se lhes faltam músculos adequados, garras, guelras ou asas, as inventam e fabricam. Pois para quando muito correr, usam rodas e motores. Ou quando a fundas águas penetram, valem-se de engenhos submarinos e escafandros.

      Já para imitar os pássaros e erguerem-se bem acima do solo até além das nuvens, desenvolvem hélices, máquinas, turbinas e asas. Aí então, voam! Não como os pássaros, mas simplesmente como homens. Homens denominados aeronautas, aviadores ou simplesmente pilotos. Pilotos de avião, helicóptero, balão, planador, asa voadora: leves, pesadões ou ultraleves, não importa.

      Se são profissionais alguns, muitos o fazem por lazer e outros por serem guerreiros, sendo parecidos entre si ou não. Mas, sem dúvida, todo homem do ar tem algo em si que o une a todos os demais do seu gênero, pouco importando se a máquina que controla em vôo seja usada para pulverizar lavouras, transportar pessoas, cuspir fogo ou divertir um público terrestre, extasiado com o exibir de suas evoluções acrobáticas.

      É algo indefinível que liga os aviadores todos entre si - espécie de encantamento talvez - quem sabe um tanto de sexto sentido a irmaná-los como pássaros da mesma família.

      Voar é basicamente pilotar uma máquina especial, consideradas apenas: inteligência e técnica humanas. Mas não será só isto, com certeza, pois se misturam a cada instante, êxtase prazeroso e temores repentinos, causados por esta mistura de metais, combustíveis, óleos, mostradores, turbilhões, pressões, vento, granizo, chuvas, escuros, claros, suavidades e brutalidades eventuais.

      Voar também traz as visões de paisagem e gente apequenada em conjunto distante. Envolve técnica e aventura, mescladas em vórtice que atordoa o piloto com a alternância das horas rotineiras e minutos tensos e críticos a espicaçar seus sentidos.

      Voar é como droga que vicia e causa incurável dependência.

      Voar é amar o avião, seu cheiro, seu mistério, seu comportamento, bom e mau. É também viver ligado aos campos de aviação, seus procedimentos e habitantes peculiares.

      Voar é deixar-se unir por elos invisíveis às máquinas e aos irmãos do ar.

      Voar não é somente para os pássaros!

Edgard Prochaska

 

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