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Por que vôo

      - Acho que o que nos faz voar, seja lá o que for, é a mesma coisa que atrai o marinheiro para o mar. Algumas pessoas jamais compreenderão isso e nós não podemos explicar-lhes. Se elas estiverem dispostas, poderemos mostrar-lhes, mas nunca dizer-lhes.

      - Acho que adoro voar e, principalmente, sentir essa tremenda relação que se estabelece entre o homem e o avião. Não entre qualquer homem - permitam-me ser romântico - mas entre um homem que sente que a sua vida é voar, para quem o céu não é trabalho ou divertimento, e sim o lar.

      - Por que eu vôo? Muito simples. Não me sinto feliz quando não há um pouco de ar entre mim e o chão!

      Já repararam que, quando essas pessoas tentam explicar por que voam e quando falam de aviões, nenhuma delas faz menção a viagens? Ou a economizar tempo? Ou à utilidade do avião? Ficamos com a idéia de que nada disso é tão importante e que não é essa a razão principal que leva homens e mulheres a se alçarem no céu. Quando os conhecemos melhor, falam de amizade e de alegria, de beleza e de amor, de vida, de verdadeira vida, com chuva e com vento. De uma vida que merece ser lembrada, sem ser preciso pular os últimos vinte e três anos. Ou um ano que seja.

      Chega-se à conclusão de que um piloto não voa para chegar a um lugar determinado, embora ele chegue a muitos lugares.

      Não voa para economizar tempo, embora economize sempre que troca o seu carro pelo seu avião.

      Não voa para que os filhos fiquem mais cultos, embora os melhores geógrafos e historiadores da turma sejam os que viram o mundo e a sua história com os próprios olhos, do alto de um avião particular.

      Não voa por economia, embora um pequeno avião usado custe menos e gaste menos do que um carrão novo.

      Não voa por lucro ou para auferir vantagens profissionais, embora possa utilizar o avião para agradar algum cliente, fazendo com que aumente a sua conta junto à firma.

      Se essas coisas fossem a única razão de voar, a maioria dos aviões atuais jamais teria sido fabricada, pois existem mil e um aborrecimentos no caminho do piloto do avião particular, aborrecimentos esses que só são esquecidos ante as alegrias de voar.

      Voar é a única atividade em que a pena incorrida por erro grave é a morte. A princípio, isso parece horrível e o público fica horrorizado quando um piloto morre por ter cometido um erro imperdoável. Mas são esses os termos que a aviação dita aos pilotos: "Amem-me e sua alegria será enorme. Não me amem e correrão grandes perigos".

      Os fatos são muito simples. O homem que voa é responsável pelo seu próprio destino. O acidente que não podia ter sido evitado pelo piloto é quase inexistente. No ar, não há crianças atravessando, de repente, entre carros estacionados. A segurança de um piloto está nas suas próprias mãos.

      Prometer em meio a uma tempestade que só vai voar mais trinta quilômetros e que depois vai aterrissar, não adianta muito. A única coisa que evita que um homem pegue uma tempestade no ar é a sua própria decisão de não entrar nela. São as suas próprias mãos fazendo com que o aparelho se desvie, é a sua perícia em levá-lo de volta a uma feliz aterrissagem.

      Ninguém em terra pode voar por ele, por mais que se queira ajudá-lo. Voar continua sendo o mundo do indivíduo, no qual ele resolve aceitar a responsabilidade dos seus atos. Recuse-se a aceitar responsabilidade no ar e você não viverá muito tempo.

      Fala-se muito de vida e morte, entre os pilotos. - Eu é que não vou morrer de velhice - disse um. - Vou morrer voando. - A vida, sem voar, não vale a pena ser vivida. O leitor não se espante da quantidade de pilotos que pensam assim porque, daqui a um ano, talvez chegue a sua vez de se converter.

      O que faz com que uma pessoa voe não é, pois, as vantagens que o avião pode trazer, nem as emoções de uma nova atividade. É o que se deseja tirar da vida. Se você almeja ter o destino completamente nas mãos, é bem possível que você seja um piloto inato.

      Não se esqueça de que o "Por que voar?" nada tem a ver com as "razões" tantas vezes apresentadas nos folhetos dos fabricantes de aviões. Se você acha que seria capaz de gostar de voar, ter um lugar reservado sempre que se cansar de um mundo de jantares, televisão, chats da Internet(!) e pessoas estereotipadas. Conhecerá gente que vive, aventuras e um significado por detrás de tudo isso.

      Se você tiver muitos lugares para se voltar quando está farto de papo furado; se muitas coisas memoráveis aconteceram na sua vida, nos últimos dez anos; se para muitas pessoas você tem sido um amigo verdadeiro e muitas pessoas são realmente suas amigas, você não precisa aprender a voar.

      Mas, se você responder "não muitos", então talvez valha a pena você parar um dia junto de um pequeno aeroporto, dar uma volta e descobrir a sensação de se sentar na cabine de um avião leve. E, talvez, você encontre aquele lugar etéreo e especial em que centenas de milhares de pessoas em todo o mundo têm encontrado respostas ao seu vazio.

Texto original de Richard Bach
Texto adaptado

 

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