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Lucidez

Formava-se, então, uma platéia. Alguns torcendo, outro apenas ansiosos, até indiferentes, porém todos como uma massa, queriam ver o show. Não, não mais um show comum. Lá, no ponto mais importante, no cume da pequena montanha, o palco, um homem, único ser, que naquele momento representava o mundo.


Todos ali presentes o conheciam, e sabiam que à meses aquilo está sendo minuciosamente preparado. Meses, que talvez resultariam em tão poucos e questionáveis momentos de prazer.


Esperava uma brisa mais forte, provavelmente o momento certo, que o corpo e mente se transformam num só, onde somos passíveis das mais maravilhosas bravuras e proezas. A apreensão continuava.


O vento se apressou, instigando e ao mesmo tempo duvidando da coragem deste homem. Chegara a hora, finalmente toma uma irreversível posição. O céu azul, frio e indiferente, conhecia tal resultado, e pouco se importava. Uma velha fragata, senhora dos ares, descrevia círculos no céu observando o acontecimento. Certamente de divertia com a cena.


Só, no palco, sente que é chegada a hora, então, sem mais explicações, olha para o povo magnetizado ao solo, respira fundo e sente o arder do suor que lhe molhava os olhos, percebe o vento, dá os primeiros passos, corre, salta. A fragata repentinamente fecha as asas, e num mergulho mais veloz alcança a máquina de voar, asas abertas lança um amigável olhar ao nosso homem, ambos voam. O pássaro mantém um vôo em ala por alguns segundos até que sobe aos céus novamente, o homem desce.


Todos correm para o local do pouso, admirados com o fato. Não queriam reconhecer, porém era verdade. Pairando por alguns instantes que fossem, seres terrestres, sem asas, podiam sentir, era algo superior, afinal, quantos já infrutiferamente haviam tentado?


Quem sabe escutar os gritos de felicidade de quem voa pela primeira vez, sabe que o êxtase se consuma.


Retorno a minha consciência. Vejo que a luz do sol avermelha o horizonte, ergo os olhos e vejo os últimos raios de luz. Sinto uma brisa gelado. Fecho o tão interessante livro que me entretinha. Saio da barraca armada em baixo da asa do Cessna 140, confiro as amarras e a fixação das estacas. Desejo-lhe uma boa noite, retorno à barraca, e entro no meu saco de dormir. Venho à pensar no que havia lido: será que o homem não voa?

 

Acho que estão equivocados...


As profundezas do sono logo me carregam.

 

 

Márcio Perez

 

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