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Havia uma vaca no caminho

     Ele era um garoto diferente. Gostava de soltar foguetes mas não aqueles de festas juninas. Seus foguetes pretendiam atingir alturas muito maiores. Tinham asas, empenagens e fuselagem, embora esta, algumas vezes, teimasse em seguir sozinha pelo espaço, largando para trás suas pobres companheiras. Ao invés de jogar bola, com a qual não tinha muita intimidade, preferia voar planador, gastando os poucos trocados que tinha no bolso. Naquele dia, Ozires Silva juntou tudo que tinha e resolveu pagar um reboque de avião, um Stinson, ao invés do guincho, muito mais barato, mas que não levaria o planador na altura suficiente para o que ele, ainda novato, pretendia fazer: obter seu Brevê C (vôo livre de mais de 30 minutos). As condições atmosféricas eram ideais. No mês de fevereiro, em Bauru, formavam-se muitas térmicas de grande intensidade capazes de sustentar um Grunau Baby no ar pelo tempo necessário para obtenção da marca tão almejada.

     Tinha apenas 19 anos e muitos sonhos pela frente. Queria entrar para a Escola de Aeronáutica e seguir a carreira de piloto militar. Seus vôos no Aeroclube de Planadores seriam uma preparação para o futuro. Puxado pelo Stinson, Ozires desligou o gancho a 600 metros, altura bastante segura para lhe permitir centrar uma térmica e subir ainda mais. E foi o que aconteceu. Tudo tranqüilo, dentro do planejado ele acabou indo a mais de 3.000 metros, suficientes para fazê-lo relaxar e sonhar com seu curso de piloto militar. Seus pensamentos continuaram a vagar pelo tempo e ele, deixando sua timidez de lado, até se imaginou participando de programas de fabricação de aviões no Brasil, um país que nem produzia carros naquela época, final da década de 40.

     Tanto sonhou que nem percebeu que o vento sul, que sopra forte no final da tarde, o tinha levado para longe da pista e junto com as térmicas de que os planadores necessitam para manter-se no ar. Era tempo de voltar, ele que já estava no ar havia quase três horas!

     Ozires se encontrava sobre a cidade quando começou a sentir dores nas costas. Pior que as dores, agora eram as térmicas que haviam desaparecido por completo. Olhou para a pista e, achando que ainda poderia alcançá-la, pilotou seu Grunau Baby em sua direção. Nestas condições, voava num silêncio cortado apenas pelo ar em torno do cockpit. Sentia-se como um pássaro. Com uma pequena diferença, aqueles podiam bater asas para se sustentar no ar na falta de correntes ascendentes, o Grunau não.

     À medida que perdia altura, a pista parecia cada vez mais distante. Num certo momento compreendeu que não conseguiria seu intento. Teria que pousar num pasto, pouco antes da cabeceira. O terreno parecia bom e, aparentemente, sem obstáculos. Ótima oportunidade para testar suas habilidades num pouso em terreno que não o da pista do aeroporto. Tudo estava indo razoavelmente bem até que, no momento em que já estava deslizando pelo chão irregular, tentando parar, uma vaca apareceu na sua frente. Não lhe restou outro recurso senão executar um perfeito "cavalo de pau" que acabou danificando bastante o Grunau. Final imprevisto de um vôo que corria as mil maravilhas.

     O responsável pelo clube, Kurt, veio imediatamente ao seu encontro, dirigindo um Ford bigode. Ozires, apesar de ter quebrado o planador, pensava que o Kurt se mostraria preocupado com a sua saúde mas, ao invés disso, ele foi logo dizendo com seu forte sotaque germânico: "Sua burra. Agorra focê pega essa p... e lefa de folta prro hangarr!" E foi-se embora, largando Ozires com seus problemas. Sorte que seus companheiros de clube chegaram também, e o ajudaram a levar o que sobrou do planador.

     Mas a braveza do bom Kurt não demorou muito. Apesar do acidente, Ozires recebeu seu brevê e pôde continuar a voar seus sonhos cada vez mais alto. O ocorrido, que poderia ter acabado com suas aspirações, serviu apenas como degrau para galgar a escada que o levaria a se tornar uma personalidade das mais prestigiosas do mundo da aviação.

     Mas, naquela tarde/noite Ozires ainda teria que dar muitas explicações, agora para Therezinha, sua namorada e futura esposa, que o aguardava para tomar um sorvete na conhecida Confeitaria Lalai. A dúvida era se ele ia direto para o encontro, sujo e suado como estava, ou se ia para casa tomar banho e chegar mais atrasado ainda...

Michel Cury

 

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