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Bonanza com GPS

Eu era piloto agrícola, voava bem durante a safra, depois ficava meio parado. Mas, o dono de uma empresa para a qual eu fazia vôos free-lance, comprou um Bonanza A-36 zerinho, com cheiro de fábrica, brilhante em sua pintura creme-vermelho-marrom, e luzes estroboscópicas pra todo lado, e me contratou para pilotar a máquina. Eu tinha fama de bom piloto, sei contar piadas e animar festas, além de ser bom cozinheiro, pra churrasco, peixe ou feijoada, então fui o primeiro a ser convidado, e claro, aceitei. Um piloto é companheiro de viagens e estadias, então a simpatia é um item importante, além da competência.

            E que vida boa: apesar de “escorregadio”, o Bonanza é um avião fácil de pilotar, robusto e veloz, além de impor respeito! Por dois meses, fiz 16 viagens com ele, e sempre fazia os colegas babarem aonde ia. Ver o avião taxiando já induz uma sensação de inveja. Quando eu dizia quantas horas tinha, de fábrica, os queixos caiam mais ainda, e quando mostrava o painel, a humilhação da freguesia era total: tudo para IFR, mais Stormscope e um piloto automático de ultima geração, que é homologado para Barons e até aviões um pouco mais pesados, à pistão, como o Navajo, o que quer dizer que, no Bonanza, dificilmente ia desacoplar só por causa da turbulência de um CBzinho à toa...(pelo menos, era o que eu dizia, rezando pra ser verdade, e pra eu nunca ter que testar a afirmação). Só não tinha radar meteorológico, mas todos pensavam que tinha, pois havia uma tela grande no painel, bem parecida com um: era o auge do show: Um Moving map, acoplado ao GPS: um mapa eletrônico, que ia mostrando a viagem em cores, incluindo rios, estradas e cidades. Pra que mais?

            Então, eu decolava sempre sabendo que vários pilotos ficavam assistindo, se roendo de inveja – eu estava no céu, literalmente.

            Ligava sempre todos os rádios, principalmente para os passageiros ficarem impressionados com tantas luzinhas e mostradores digitais, imaginando como o piloto consegue entender tudo aquilo. Sim, porquê não usava nada, só o GPS e seu belo mapa móvel. E usava o básico, pois os manuais eram todos em inglês, completamente ilegíveis para mim. Como o equipamento era todo de nova geração, tudo o que pude aprender foi com um colega que me deu umas dicas, baseadas em outros modelos, e com isso eu me virava. Pra que ficar perdendo tempo com frescura se o meu problema era só “chegar lá” e era bem fácil de resolver? Eu ia à toda parte sem esforço, sem cartas, transferidor, nada dessas coisas de manicaca estudando pro primeiro exame...

            O patrão bem que tinha perguntado se eu não costumava usar mapa, como outros pilotos, afinal, ele, mesmo sem saber voar, era veterano de viagens aéreas em monomotores. Respondi que o avião superequipado que ele comprara dispensava essas coisas – minha intenção foi fazer com que ele sorrisse, ciente que investira em algo bom, a última palavra da tecnologia! Ele, pelo jeito, gostou de ouvir.

            E eu nem estava preocupado com isso. Tinha até medo de acostumar mal e sofrer quando voltasse pro Ipanema: voando sempre alto e veloz, no fresquinho, por cima das nuvens, cabine silenciosa e cheirosinha... epa! Mas, talvez, nem tivesse que voltar: a filha do patrão de vez em quando ia acompanhar o pai até o aeroporto e pelo jeito foi com a minha cara, ainda mais quando viu que eu era “engraçadinho”! Até viajou junto uma vez, perguntando coisas, rindo de piadas, interessada na pilotagem – será que era na pilotagem mesmo? Quem sabe ainda não acabo dono de Bonanza, uma frota de Ipanemas, algumas fazendinhas... hummmm...

            Então, chegou o dia fatídico: Domingo cedo sairíamos para uma fazenda de amigos da família, ao sul de Cáceres, Mato Grosso. Seriam cerca de quatro horas de viagem, desde nossa base em Campo Mourão, no Paraná. Quatro horas de conforto e descontração, afinal, toda a família do patrão estaria junto. E íamos para uma festa, passar o dia no bem-bom, boa comida, boa música, e, quem sabe, um passeiozinho a cavalo um pouco mais íntimo, a dois... eu fazia grandes planos. Tinha tempo pra isso, afinal, nem precisava preparar navegação, seria só inserir as coordenadas e partir!

            E assim fiz: abasteci e limpei bem o avião no dia anterior, de modo que foi só chegar cedo, tirar do hangar e drenar antes dos passageiros chegarem. Chegaram, e ela estava magnífica, de roupinha bem “leve”, afinal, íamos pra um lugar quente. E veio também a outra irmã, mais nova, que também logo começou a rir de meus gracejos – parece que vou até poder escolher – e não tem nenhum irmão metido a besta, com medo de dividir a fortuna do papai – que  coisa boa!!

            Preocupado com o sucesso com as meninas, e fazer uma boa decolagem(pois a patroa não era muito chegada a voar) esqueci de perguntar ao patrão quais as coordenadas, só lembrando na hora de aproar o avião. Ele então me entregou o papel com elas. Deixei o avião sendo pilotado pelo sofisticado S-Tec 55, novo modelo de AP da Bendix/King, e as inseri no GPS. Nunca vou esquecer delas: 16º48’40.0”S 59º27’12.3”W. Se eu soubesse a fria em que estava entrando...

            Ao inserir as coordenadas, o GPS pediu uma proa bem parecida com a que estávamos mantendo, que eu havia escolhido mais ou menos por “direção”. Bom sinal! Antes não fosse assim, tivesse algum aviso...

            O vôo não podia ser mais agradável. Já bem íntimo do patrão, que era ele também um grande piadista, não tive muitas reservas com o resto da família: as meninas riam muito comigo, e até o gelo da “Sogra” já estava sendo quebrado. Claro que me empenhei em mostrar concentração na pilotagem, pra eles sentirem que estavam em boas mãos, mas, como um bom piloto de Boeing, deixei o piloto automático ligado o tempo todo, e só ia “supervisionando”. Como decolamos bem cedo, não havia turbulência na subida, e lá nos 8500 pés, a tranqüilidade era total, com o Continental murmurando gostoso seus 300HP. O tempo passava, o avião não mexia, e a descontração aumentava, com as risadas ficando cada vez mais soltas: eu estava agradando!

            E sem esforço: o mapa ia mostrando o caminho, tudo nos seus devidos lugares, bonitinho(claro, afinal ele também “acreditava” cegamente no seu guia GPS). De vez em quando eu mudava alguma freqüência, só pra mostrar serviço, para que não pensassem que eu não tinha o que fazer, mas era teatrinho. Quando Campo Grande apareceu na tela, bem à direita da rota, ainda mostrei a cidade ao longe para meus passageiros, como um bom comandante deve fazer. Eu não conhecia bem aquela rota, então não podia mostrar muito. Pior pra mim, pois, se conhecesse, saberia que devia passar bem por cima da cidade, e não 42 milhas à sudoeste. Se eu tivesse pelo menos traçado a rota em alguma carta, ainda que fosse um mapa rodoviário, saberia que algo ia muito errado. Mas, o comandante de um avião tão equipado não deve se preocupar com tais futilidades...

            Ainda não eram nove horas locais quando o GPS mostrou o ponto ideal para começar a descida. Com alguns toques nos comandos elétricos do compensador do profundor e mais um ajuste no botão “Vertical Speed” do piloto automático, comecei a descida, sem sonhar que estava a uns duzentos quilômetros de meu destino, sobre território Boliviano, ainda por cima. Sorte que eles não tem caças interceptadores! O mapa mostrava claramente o erro, mas eu não estava olhando detalhes, como fronteiras internacionais, só me interessava o ponto final da viagem, principalmente depois de quatro horas sentado, pensando em como dar meu primeiro beijo nas minhas fazendas e meus aviões.

            Então, o ponto estava ali, à três minutos de vôo. Sabíamos que a pista ficaria quase na margem de um lago, onde haveria também um grande gramado e uma bela casa. Outros aviões deveriam estar ali também. O dia estava magnífico, a região é bastante úmida, então a visibilidade era grande, infinita, e nessa hora foi que tive uma ponta de inquietação: à frente, nada de lago nem casa bonita, e, pra falar a verdade, foi aí que reparei que nada abaixo parecia parte de uma fazenda rica: nada de gado, nem mesmo pasto: só a vegetação nativa do Pantanal Mato-Grossense. Aliás, era Pantanal Boliviano, embora não soubéssemos. Percebi que o patrão devia também estar estranhando qualquer coisa. Bom, o mapa, com ajuste automático de escala, e o painel do GPS mostravam o ponto final à uma milha à frente, era a hora da verdade: nada de pista, lago, casa, nem mesmo de lugar de pouso. Com o estômago embrulhado e voz presa, perguntei “como é que pode”? O nervosismo dominou, e não pude pensar no óbvio: coordenadas erradas. Se tivesse olhado bem, veria que os 59º eram na verdade 57º, e eu tinha sido vítima de letra feia, confundindo um 7 com um 9, errando assim nosso destino por dois graus de longitude – duzentos quilômetros de erro! Só que eu não mais conseguia raciocinar, preocupado com a perda de tudo que parecia conquistado, só pensei em circular, imaginando que a fazenda não estivesse longe. Até pensei em erro de coordenadas, mas imaginava no máximo alguns quilômetros. O estômago embrulhou mais quando pensei em pedir ajuda aos passageiros, para procurar a pista – era admitir o erro! Nem precisei pedir, o patrão percebeu, afinal, estava acostumado com o moving map, eu mesmo o tinha mostrado, nas viagens anteriores (todas deram certinho!). Ele apenas virou pra mim e perguntou: onde está a fazenda? Quero ir no banheiro, cara! O tom de gozação acabou logo, até porquê estávamos baixo, e a turbulência estava ficando fortinha. Banheiro? Todos deviam estar querendo, inclusive as mulheres, que já estavam intranqüilas com o balanço todo e a quebra de promessa de “pouso em cinco minutos”. E agora? O patrão mesmo pediu: todo mundo olha pra fora, pra procurar a pista! Ao que a patroa, nervosa e já amedrontada, respondeu: “Não me diga que estamos perdidos?”

            Estávamos. E em um lugar ermo, dentro da Bolívia. O Brasil estava, agora eu sei bem, à 40km ao norte, e 90 a oeste, mas, na hora eu não tinha a menor idéia. E o pior é que não havia cidades em volta, nada visível. Já fazia tempo que eu não lembrava de ter visto nenhuma pista de fazenda, não havia alternativa próxima. Foi aí que lembrei do GPS: todos tem a opção GOTO NEAREST, que mostra, ao toque de um botão, os aeroportos mais próximos, então fiquei aliviado por um instante. O alívio logo virou terror: eu não sabia como usar este aparelho, pois não havia lido o manual, e ele era até de marca diferente do que eu estava acostumado. Minhas mãos tremiam quando as levei até a frente do aparelho, um Trimble de painel, procurando o botão “salvador”, do qual nunca tinha precisado. Aí, começaram os impropérios do patrão, perguntando que raio de piloto eu era, em quem ele tinha confiado sua família e seu avião! Com isso, as passageiras, já preocupadas e assustadas com a turbulência, ficaram mais nervosas ainda! A vomitação não demorou também, mudando o cheiro da cabine, pra um bem menos agradável!

            Aí pensei no combustível, e a dor de barriga piorou bastante: tínhamos gasolina para mais uma hora e meia, o que pode parecer muito, mas, no meio do nada, sem idéia de onde se está, é pouquíssimo! O patrão, parece que leu meu pensamento, perguntando: “Quanta gasolina tem nessa merda?”, o que aumentou bastante os gritos das passageiras, para as quais eu não era mais herói.

            Na hora do nervosismo, a gente faz cada uma: pensando em “fazer alguma coisa”, desliguei o piloto automático e assumi a pilotagem manual, o que só complicou a minha vida – mas, não podia ligar novamente, e só “ficar olhando”, seria mais patético ainda! O que fazer?!

            Eu até tentei tranqüilizar, dizendo que estávamos próximos ao destino, afinal, o mapa mostrava o destino próximo. Mas o tremor da minha voz e de minhas mãos me traiu, mostrando que nem eu acreditava no que tinha dito. Quase sujando as calças, resolvi, pura e simplesmente, prestar atenção no mapa digital, quando então percebi o erro grosseiro. Alívio, afinal! Descobri aonde estávamos! Pelo menos não estávamos mais perdidos! Mostrei logo aos passageiros, mas a resposta não foi tão suave assim, afinal, estávamos muito longe de onde deveríamos estar. Haveria combustível? Sim, havia. Felizmente, era de manhã e o tempo era bom. Se fosse ao por do sol, ou estivesse chovendo, a história podia ser outra, bem pior!

            Afinal, houve mais tranqüilidade. O patrão acho que cansou de me xingar, e as mulheres sossegaram, até por quê subi um pouco, acima da turbulência. Mas o cheiro de café da manhã devolvido, espalhado pelo chão do avião, poltronas e o que é pior, roupas, continuava forte e ácido. E é com essas roupas que elas iam passar o dia, por minha culpa...

Não é de admirar o silêncio na cabine, até pousarmos em Cáceres, onde descobri o erro. Não que isso importasse, pois a vontade de almoçar na fazenda já tinha passado há muito tempo. Ainda passei em Cuiabá na volta, de onde as mulheres tomaram um comercial para voltar pra casa. Na cabine do Boeing, com certeza as informações do GPS(ou equipamento inercial) seriam cruzadas e conferidas a todo instante com VORs e ADFs, e plotadas em tabelas e em cartas, de modo que o destino chegaria exatamente como planejado. Se eu tivesse o costume de fazer isso, teria visto o erro bem perto de casa, comparando com algumas broadcasts, e principalmente em Campo Grande, que tem VOR e NDB. Ou talvez nem houvesse erro, pois a confusão da escrita dos números das coordenadas nem era assim tão grosseira, e teria sido percebida com facilidade se a navegação fosse preparada em casa, no dia anterior, sobre o mapa, e com o ROTAER aberto. Justamente o que eu faria hoje, se alguém me desse emprego de piloto. Meu ex-patrão era muito conhecido no ramo da aviação agrícola, e, como sabem, o mundo da aviação é muito pequeno, as notícias, principalmente as ruins, correm logo...

 

José Marmontel