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A mãe vai bem, né?

Fernando Gomes era também primo do Clóvis Filho, locutor esportivo prematuramente desaparecido, a quem me referi recentemente como ´´o primo de fé (veja a crônica Cagado de Arara).´´ Éramos, portanto, os três, primos. Primos e amigos.

Não tenho registros da infância de Fernando. Começamos verdadeiramente a nos encantar um pelo outro quando ele iniciou seus vôos e eu a falar em rádio, dois sonhadores irrecuperáveis, vocações metafísicas, das quais o homem nunca se livra.

Ele contava estórias que me fascinavam, falava das nuvens, sabia tudo de nuvens, da sua textura, das suas cores, dos seus mistérios, dos seus perigos, falava da velocidade do ar que sustentava o avião, da volúpia de subir lá em cima mantendo alto o bico da aeronave, até que a mesma tremesse toda num derradeiro estertor e finalmente desabasse como a ave abatida. Falava dos loopings, dos banks, dos pitch up, dos pitch down, dos flaps, falava dos ailerons, axis, elevators, rudders, trims, stabilizers, landing gears... Mais tarde lendo Antoine de Saint Exupery pude encontrar em ´´Terre des hommes´´, ´´Vol de la nuit´´, ´´ Corrière Sur´´ e outros, as mesmas suaves emoções que encheram de poesia a vida do Comandante Gomes.

Gostava de rádio. Lá do alto, sempre que possível, sintonizava o rádio-goniômetro de suas primeiras e velhas aeronaves na emissora em que eu trabalhava. E por ela se orientava, alimentando o amor que nos unia pelo tênue fio da comunicação radial. Era o suave poeta num dos raríssimos momentos em que subjugava o piloto inflexível.

Foi para a Varig onde durante décadas escalou todos níveis, passou por todas as aeronaves, DC-3, C-47, Convair, Electra, Super-Constalation, DC-6, DC-7, Caravelle, Boeing, Boeing, Boeing, até receber a ´´pala dourada´´, marca registrada dos professores-doutores da moderna aviação. Um gigante.

Aposentado, mora em Miami, bem sucedido. Um dia, vamos nos reencontrar e certamente vou ter de lhe contar minhas andanças pelo rádio e ouvir dele mais algumas aventuras de arrepiar os cabelos...

Gomes, portanto, respirava aviação. Na sua cabeça não havia espaço para outra coisa que não fosse aviação. Acordava aviação, almoçava aviação, voava e jantava aviação. Só falava de aviação. Onde quer que estivesse tinha sempre uma roda à sua volta ouvindo estórias inacreditáveis de situações críticas que certamente, pelo resultados, mereceram sempre os mais prontos, adequados e sofisticados procedimentos.

Quando fazia a Ponte Aérea, era comum vê-lo no saguão do Aeroporto de Congonhas, impecável no seu uniforme preto, punhos ornados por quatro tiras ouro, ombreiras igualmente bordadas e o quepe imaculadamente branco de pala d-o-u-r-a-d-a, seu maior orgulho. Havia sempre muita gente à sua volta, amigos, colegas, curiosos. Gomes falava e gesticulava, indicando com o corpo das mãos as diversas posturas (attitudes) da aeronave, na medida em que as emergências eram narradas e os procedimentos quase automatizados iam sendo adotados. Falava:

--- Tinha acabado de recolher o trem de pouso quando a luz vermelha do motor da direita indicou fogo. Ordenei: ´´Cortar motor da direita e acionar extintores!!!´´ Chamei a torre e pedi prioridade para pousar. A ´´jaca´´ ganhava altura com dificuldade e tive de esperar para iniciar o procedimento volta. Altitude: 2.700 pés. Velocidade: 180 nós. Motor embandeirado em cima, completados os 180 graus, ordenei: ´´Trem em baixo!!!´´

A galera no aeroporto nem respirava. Era um silêncio de lascar. A cada lance mais curiosos se juntavam ao grupo. Gomes, no auge da sua realização, usava matizes fortes para colorir a estória:

---´´Negativo, avisou o co-piloto: pane hidráulica, pelo painel o trem não baixou...´´ Não havia tempo para conferir nada, poderia ser falha do alarme ou mesmo do trem, que fazer? Motor da esquerda esquentando e perdendo potência... Pensei, vai ser agora ou nunca!!!

A turma seguia a complicação em silêncio, olhos arregalados, alguns transpirando, ansiosos pelo desfecho. Gomes, levantou a cabeça, respirou fundo e vaidoso da sua hora, prosseguiu:

--- Ordenei: ´´Tripulação, preparar para o pouso.´´ Nova queda de pressão no motor, perda de altitude, flaps emperrados, co-pila avisa: ´´Fogo no motor da esquerda!!!´´ Foi exatamente aí que a roda da direita, como que por milagre, tocou suavemente a pista e gritei: ´´Cortar motor da esquerda e acionar extintores!!!´´ O avião percorreu os 4 mil metros da pista e lá no final já parado com os bombeiros ao lado, fiz a recomendação: ´´Quero a ´´jaca´´ pronta para decolar antes das 5, pois a iluminação da pista está inoperante.´´

Franziu a testa, cerrou levemente os olhos, encheu os pulmões e concluiu displicente a instrução que passara ao co-piloto:

--- ´´Inoperante aqui e no destino.´´

Silêncio à volta, o pessoal dá uma respirada legal, muitos se entreolham, alguns secam o suor da testa, quando lá do fundo do grupo, meio-como-quê propositadamente escondido, o Clóvis gritou:

--- ´´Comandante, agora conta ´´aquela´´ do dia em que o senhor morreu!!!´´

O Comandante balançou a cabeça, cerrou o cenho, fechou o olho esquerdo, levantou a sobrancelha direita e com a boca quase fechada estrebuchou:

--- ´´CLÓVIS, A TIA IDA VAI BEM, NÃO ?!!!???!!?´´

Braga Júnior

 

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